sábado, 31 de outubro de 2020

o fogo não é nada de novo


dias que mal me lembro
que mal sinto se passam
o coração é um apartamento fechado
 
e até as paredes têm cor de desalento
(as janelas cobertas de poemas velhos)
o que seria de mim sem
 
as tuas palavras no ouvido
rugas nos olhos
um corpo cansado
milhões de mortos
 
e mais um outono
pedaços de quem só pensa em pedaços
                                                 [e o fogo 
não é nada de novo

segunda-feira, 6 de julho de 2020

uma promessa


quando tudo parecer perdido
me lembra que uma coragem vive no desespero
e em sonhos que nunca nos tiraram
me lembra que nada dura pra sempre
e cada segundo contém a chance
de um novo começo
me lembra que esperança é risco
e o nosso grito
é parte de um eco
me lembra que a dor nos quebra
e não precisa
e toda luta carrega uma promessa
nem a pedra mais dura resiste à força
de toda essa água

sexta-feira, 10 de abril de 2020

carta contra o firmamento


                                 to Sean Bonney

hoje levantei de madrugada
pra ler poemas de katerina gagou
e descobri que você foi encontrado
morto em novembro
em algum lugar em berlim
katerina se suicidou em 1993
o futuro é agora ou não é nada
ninguém mais apaga a nossa revolta
mais três cliques pra esquerda
meu corpo cheio de cartas e letras
e páginas rasgadas
nossa solidão imensa
na janela garrafas de cerveja em fila
por aqui o que se ouve
é o maldito som das sirenes
e das medidas de austeridade
não acredite em nada
que sai da boca deles
hoje, onde o futuro não existe
e as flores só nos deixam mais tristes