domingo, 4 de dezembro de 2011

a cara de um candidato político em um outdoor
(tradução de poema de Charles Bukowski,
"face of a political candidate on a street billboard")




lá está ele:
sem muitas ressacas
sem muitas brigas com mulheres
sem muitos pneus furados
nunca um pensamento sequer sobre suicídio


não mais de três dores de dente
nunca perdeu uma refeição
nunca foi pra cadeia
nunca amou

7 pares de sapatos

um filho na faculdade

um carro zero

apólices de seguro

a grama verde no jardim

latas de lixo com tampas que fecham

ele será eleito.
The Drill
by Charles Bukowski
(tradução minha)


nosso livro de casamento,
diz.
folheio as páginas.
durou dez anos.
foram jovens, um dia.
hoje durmo na cama dela.
ele telefona pra ela:
"quero a minha furadeira de volta.
fique com ela pronta.
passo pra pegar as crianças às
dez."
quando ele chega, espera do lado
de fora da porta.
as crianças vão embora com
ele.
ela volta pra cama
e eu estico uma perna
e a coloco sobre a dela.
também fui jovem um dia.
relações humanas simplesmente não 
duram.
penso nas mulheres
da minha vida.
elas nem parecem existir.

"ele pegou a furadeira dele?" pergunto.

"sim, pegou."

e me pergunto se um dia terei que voltar
pra pegar minha bermuda
e meu álbum de música
da The Academy of St.Martin in the
Fields? acho que
sim.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Corvus





Out of nothingness, walking the thin line between
sleeping and dying. Out of the void to the free fall,
head disquietly shaking, face rubbing against the pillow,
mouth open gasping for any air left. Running saliva,
warm and wet, touching while sliding through the pillowcase,
the bitter taste of smoke.

On the rooftops of the neighboring houses
the crows scream like children being tortured to death; it is horrible,
and it wakes one into a life of horror, for that second believing
a nightmare to be just true. As reality sinks down I somehow
manage to stand up and put myself together again. Good morning,
I look at the clock, a life of its own, beating away, and it tells me it is 7.35am.

As I walk out of the bedroom I look for a stone
but end up being satisfied with a baseball I see on the table. I grab it,
my back turned to the balcony, still nothing but the sound
of crows screaming like crazy monkeys going mad; so I throw the baseball at them,
and watch as they fly away through the trees and into the sky, screaming further,
three big black birds; all right now, I think, now I can make some coffee.




sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

pedido de desculpas






e se o tempo não foi dividido e o agora
e o passado se encontrassem no amanhã
o futuro contido no que já passou
e se o tempo fosse todo o mesmo
para sempre presente
seria o tempo todo irrecuperável
o que poderia ter sido não passa de abstração
uma eterna promessa de possível
um mundo inteiro de especulação
o que poderia ter sido e o que de fato foi
não anuncia final algum
o que é portanto sempre presente
o som do toque dos passos ecoa na lembrança
por entre os caminhos que não tomamos
em direção à portas que nunca abrimos
ecoando
como palavras na cabeça de alguém.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Open House
(poema traduzido de Theodore Roethke)




Meus segredos lamentam-se gritando.
Não tenho necessidade de fala.
Meu coração mantém-se abrindo,
Minha porta escancarada.
Um épico do olhar
Meu amor, sem disfarçar.

Minhas verdades todas descobertas,
Essa angústia que revela a si mesma.
Estou exposto até os ossos,
Com desnudo como escudo.
Meu ser é o que visto:
Mantenho o espírito omisso.

A raiva há de resistir,
O dever há de a verdade dizer
Em linguagem firme e pura.
Eu interrompo a boca que mente:
O ódio urra a mais límpida melodia
Do sem-sentido da agonia.