quarta-feira, 19 de julho de 2017

até que exploda



o odor de corpos numa sala fechada
pessoas sem casa cruzando
sinaleiras/ vagando pelas ruas de madrugada
as pernas sujas de lama
palavras presas na garganta/ a voz rouca
a boca sedenta/ a pele
descamando sobre as costelas/ lembra
se tomei os remédios?
prédios pegando fogo/ ruas em guerra
calçadas limpas segunda-
feira/ “as ruas não são seguras”/ câmeras
de vigilância/ viaturas
velhas mentiras/ “por que essa gente
não faz algo da vida?” 

o odor de corpos numa sala fechada
pessoas encolhidas sob
marquises de loja/ sobre caixas
de papelão/ cartazes
escritos à mão/ uma lata/ meia-dúzia
de moedas/ uma mala
vermelha/ séculos de sangue e suor
sugados à força/ ruas
cheirando à fumaça/ à gasolina/ quanto tempo
até que exploda


quarta-feira, 5 de julho de 2017

amor e revolta



faz dias que chove quase sem trégua
faz dias que sinto algo impregnado na roupa
como cheiro de cigarro

faz mais de cinco anos que não fumo
faz meses que bebo quase toda noite
faz tempo que não sonho
que não lembro de sonhar

não faz muito tempo que chorei
faz quase trinta anos que nasci
e cinco que nasci de novo
que perdi o medo de amar alguém mais que tudo

faz mais de dez anos que escrevo
que encho folhas de caderno com palavras
com amor e revolta


terça-feira, 20 de junho de 2017

pra manter separado



só mesmo o privilégio
pra manter separado/ o que vivo

daquilo que escrevo/ o que sinto
do estômago cheio

do apartamento alugado/ da mesa
coberta de livros

só mesmo o privilégio pra manter
separado/ o que sonho

daquilo que faço/ do fio com
que teço/ cada dia

que passa/ pra manter separado
um poema/ da dor

em volta/ do calor do corpo/ do amor
que me acorda