terça-feira, 3 de abril de 2018

amor e revolta (revisited)



faz dias que chove quase sem trégua
faz dias que sinto algo impregnado na roupa
não é cheiro de cigarro

faz mais de cinco anos que não fumo
faz meses que bebo quase toda noite
que não sonho
que não lembro de sonhar

não faz muito que chorei
faz quase trinta anos que nasci e cinco
que nasci de novo
que perdi o medo
de amar alguém mais que tudo

faz quase dez anos que escrevo
que encho folhas de caderno com palavras
com amor e revolta

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

no dia em que ela foi encontrada morta (re-revisited)



a sacada, o sofá. a caixa de fósforos no trilho
da porta. a manhã ainda escura. o silêncio
a chama. mais um dia. dores de um mundo
em madrugada. janelas e mais janelas desamparadas

o que resta de tudo isso. do pó, do copo
da fumaça. de outra aposta perdida. lembranças
abertas e um milhão de coisas que não
valem nada. a caneta, o caderno quase
em branco. o medo. a ânsia por algum
entendimento. algum consolo. um encontro

de papel. sensação sem sentido. lições
de um mundo que sabe ser frio, rancor
de quem não sabe perder. é que também já

morri cem vezes, mas você agora
cansou de voltar. e sinto muito, e declaro cem
dias e noites de luto

num piscar de olhos (revisited)



quando fechou os olhos tudo que enxergou foi o abraço que já não tinha

viu a rua dela, uma lomba
as grades cinzas do prédio
os azulejos vinho da fachada

viu o dia em que foi buscar uma camiseta velha, a última coisa sua
que ela ainda guardava

viu a cara fechada
as lâminas
as feridas 

quando abriu os olhos
tudo que enxergou foi o contorno de garrafas vazias, palitos de fósforo
uma pilha de livros

a gente perde quem mais ama
num piscar de olhos
quando a falta vira um gosto na boca
é tarde