quinta-feira, 13 de setembro de 2018

lágrimas não secam



o despertador toca
o sol machuca pela persiana

tudo machuca, nada
nos acorda. nos acordava?

desejos mortos na praia
de mais uma esperança

há tempo pra desculpas?
falta ar, sobra miséria

velas, lágrimas acesas
olhos em chamas/em ruínas

e agora? é primavera
o inverno não termina

ao pé da cômoda
fios de cabelo, pele morta

ordem e progresso
e silêncios blindados

não, lágrimas não
secam. lágrimas queimam

se espalham

de olhos abertos


uma rosa
garrafas de vodca e sacolas plásticas

a primavera
a primavera grita em filas de espera
e bancos de praça

uma pessoa acorda
suplica por um cigarro

aranhas devoram
páginas do meu corpo

pássaros cantam
não entendo

o que sinto
o que sinto jaz de olhos abertos sob
o sol das oito


me ama agora



me ama agora
tudo em volta é espera
e grama seca 

o céu se quebra
acordo sóbrio
e sem sorriso
a boca cheia de espinhos
e calcário 

gritos abafados
um gosto de trilhos
e silêncios

poemas sonhados
natimortos
nosso medo
impávido colosso

me ama agora
dia e noite
não têm diferença

luzes o tempo
todo ligadas
sem janela pra fora

asas furadas
veias difíceis
a boca cheia de moedas
e formigas